Por: Lucas Navarro
Era mês chuvoso. Vez por outra alguns raios se
intrometiam lá pela hora do almoço, porém nem passava a digestão e as nuvens,
como de alguma praga do Antigo Testamento, voltavam e castigavam a inundada
cidade pecadora. Naquela quinta-feira
não foi diferente. Saí do trabalho e caminhei com guarda-chuva até o metrô. No
ingresso marcava que a ópera começaria às vinte horas. Como já passava das
dezenove, corria. Ser pedestre em São Paulo é, de repente,
perder a hora, esquecer o tempo, se atrasar, esquecer-se de si, parar o mundo,
na epifania de encontrar, num canto do metrô, músicos que tocam notas cuja
percepção sonora amalgamada pelos ruídos do subterrâneo da metrópole nos
escapa.
Escalo até a
superfície sem tempo para flanar e tendo a bexiga cheia aproveito o farol.
Curiosa é sensação de
suspensão do tempo dentro do Teatro Municipal. Dos afrescos, esculturas,
umbrais aos bolinhos: tudo convida a contemplação e, por instantes, parecemos
viver plenamente. Mera ilusão. Essa sensação dura apenas até a segunda
campainha em que você precisa engolir o café com o bolinho e esquecer-se de
pegar o troco.
Entra-se, senta-se,
espera-se... Escurece. É aí que nos esquecemos de tudo aquilo que veio antes e depois.
Tarefa inútil,
admito, a de tentar descrever o que aqui se segue, como no impossível de Lacan, que não pode ser atingido e escapa ao
discurso, quer se verifique em termos topológicos, que não se pode fazer coincidir
uma ordem pluridimensional (o real) em uma ordem unidimensional (a linguagem).
Ora, é precisamente a essa impossibilidade topológica que eu não vou aqui
render-me.
As primeiras notas de
Pelléas et Mélisande invadem a sala.
Era como se todos que estavam ali presenciassem o despertar de alguma coisa invisível
que dormia há muito tempo. Respirava enfim, novamente. Levantou consigo a
cortina e mostrou seu lúgubre semblante. Adaptada de uma peça de Maeterlinck essa
foi a única ópera deixada por Debussy que, com outros projetos em mente,
preferiu abandoná-los e para se debruçar por mais tempo e aperfeiçoar
obcecadamente sua obra prima. Aqui ele não buscava mais uma função gramática,
mas forjava sua própria gramática e é para qual toda a sua produção converge,
como se nela estivesse contida todo Debussy.
Os cinco personagens
são igualmente importantes. Mélisande é a jovem encontrada chorando na beira do
lago. Sua primeira aparição lembra o Narciso de Caravaggio, mas aqui, ainda
numa busca primária da identidade. Depois temos Goulaud, o príncipe viúvo que a
encontra e a desposa e cuja escala emocional vai do extremo protetor ao extremo
violento. O Jovem Pelléas, meio irmão de Goulaud, com quem se configura o
triangulo amoroso e, finalmente, dois grandiosos personagens coadjuvantes:
primeiro Geneviève, mãe de Goulaud e Pelléas, com uma austeridade de espírito
que inspira respeito e finalmente o grandioso e fascinante e nem sempre
devidamente apontado Arkel, o velho e alquebrado rei que, desencantado com as
leis do mundo, decide não mais intervir na vida e destino dos homens.
O que torna o drama
musical de Debussy uma tristeza tão abissal? Afinal é uma tragédia comum em seu
drama burguês ainda que mítico e atemporal, conforme observa Pierre Boulez. Ocorre
que há no palco uma imagem elusiva, uma presença quieta, como um outro
personagem. Esse é a morte que atua como grande indutor da trama como tema
implícito. Decorre daí que essa é obra movida por aquilo que se denomina pulsão
de morte, para usar termo posterior afinal a psicanálise de Freud ainda não
existia.
Sem tempo, sem espaço
delimitado, sem ação ou movimento grandioso a ópera é simbolicamente ambientada
num reino denominado Allemonde, como
se fosse um além mundo. Como não há nada de sobrenatural na peça só resta
concluir que esse outro mundo não é outro se não o mundo interior do indivíduo,
do ser, do sujeito. Taciturnos, algo fantasmático, esse personagens cantam
imersos em escuridão e cenários sombrios, como que antecipadamente em luto. São
raros os instantes de fulgor.
Debussy
dizia que a música não é expressão do sentimento, mas o sentimento em si, pois
é bem esse estado de suspensão, essa expressão pura do mundo das sensações o
que aflora de forma particularmente evidente no enigma que é esta ópera.
Durante a sua vida teve dezessete projetos teatrais em mente. Apenas na
dramaturgia de Maeterlinck, porém, ele encontrou o seu libretista ideal, alguém
que, nas suas palavras, “diz as coisas pela metade”. Melisande é explicita ao
dizer “não sou feliz”, quanto a tudo ou mais que ela não sabe verbalizar caberá
à música dizer.
Tempête, cotês de Belle-Île; Claude Monet, 1886. Paris, musée d’Orsay.
Pelléas et Mélisande é um obra de reticências,
aqui importa menos o que se mostra do que aquilo que se entrevê e é justamente
por tais fendas que se manifesta o velado erotismo da peça, difícil deve ser a
tarefa de transpor musicalmente esses personagens tão evasivos, particularmente
esse “nada” em que se investe Mélisande, fascínio oblíquo dessas suas criaturas.
Suas aparições, sombras e reflexos são enigmas do mundo simbolista sem
fronteiras claras ou dimensões fixas. A música começa onde a palavras é incapaz
de exprimir. Suas cortinas instrumentais compostas por demanda da encenação de
mudanças de cenário, a orquestração é uma tapeçaria de timbres delicados, no
ideal de Debussy: “uma orquestra à contra luz”
Uma ópera almejada sem chão, flutuante, “que ela saia e retorne às sombras, que seja discreta pessoa”, como mais um personagem, mais um mistério, palpitação. O mistério de Mélisande mobiliza o amor casto de Pelléas e a paixão possessiva de Golaud que culminará em tragédia e morte, sua beleza e frescor também desperta o olhar de Arkel, como que se, ante a mera visão dela, ele pudesse sentir novamente a vida pulsar.
Uma ópera almejada sem chão, flutuante, “que ela saia e retorne às sombras, que seja discreta pessoa”, como mais um personagem, mais um mistério, palpitação. O mistério de Mélisande mobiliza o amor casto de Pelléas e a paixão possessiva de Golaud que culminará em tragédia e morte, sua beleza e frescor também desperta o olhar de Arkel, como que se, ante a mera visão dela, ele pudesse sentir novamente a vida pulsar.
O
ciúme irracional de Golaud que invade a cena progride do desdém e inocência de
Mélisande para violência física e moral sobre ela, caberá à Arkel, impotente,
apenas o testemunho final, triste e amargo: “se eu fosse Deus, teria piedade do
coração dos homens”. Os dados já foram lançados, não há qualquer dúvida quanto
ao desfecho da trama. Todos, amor e ódio, já foram declarados, Pelleas é morto
e na última cena Melisande delira em seu leito de morte, sempre interrogada por
Golaud sem saber que pariu uma criança, sua herdeira trágica. Na voz de Arkel, faz-se
o último pedido de silêncio.
Naissance des pieuvres; Claude Monet, 1906. The Art Institute of Chicago.
É
nessa embriaguez de silêncio que me dá o estalo.
Não há categorizações aqui. Na relação
íntima com o inefável, do inapreensível, é que repousa essa experiência
estética. É perto da fonte de Mélisande que Pélleas murmura: “Há sempre um
silêncio extraordinário... Ouviríamos a água dormir”. Ouçamos o silêncio. Nas
palavras de Gaston Bachelard: “Parece que, para bem compreender o silêncio, nossa
alma tenha necessidade de ver alguma coisa que se cale; para ter certeza do
repouso, tem necessidade de sentir perto dela um grande ser natural que dorme”.










