sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Niandra Lades And Usually Just A T-Shirt, por Rafael Crespo



          “Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt” é um álbum lançado em 1994, pelo músico John Frusciante. Gravado entre 1991 e 1993, o álbum apresentou para o mundo o estado em que John Frusciante se encontrava após abandonar a carreira de sucesso (junto ao Red Hot Chili Peppers), totalmente afundado nas drogas. Ele toca vários instrumentos como guitarra elétrica, violão, banjo e piano. O vício em heroína e problemas com depressão colocaram Frusciante em um momento de alta perturbação, deixado transparente em “Niandra”.
Desde pequeno sou admirador de John Frusciante, mas tive meu primeiro contato com o “Niandra” apenas no ano de 2009. Acostumado com sua voz suave e músicas belas, que sempre tratou de compor, fui pego de surpresa quando ouvi as primeiras faixas do álbum. Há uma infinita falta de preocupação com a estética musical. Desta forma, o disco foi incansavelmente criticado e rejeitado por muitos de seus fãs. Tentei, com extrema dificuldade, digerir e decifrar as mensagens que Frusciante passava com aquela música turva.
Muitos de meus amigos recusaram-se a ouvir o disco até o final. Confesso que é assustadoramente perturbador. Apesar de estar longe de algo considerado belo, “Niandra” teve a capacidade de me atingir profundamente. No auge dos meus 17 anos, percebi o quanto a arte (que eu conhecia) estava acorrentada ao belo. Frusciante me mostrou, naquele momento, o contrário. Em um instante de extrema dificuldade, criou um disco desprovido de beleza. E era esta sua real intenção. Quando me dei conta disso, uma liberdade divina me tocou.
O sentimento foi tão forte que, até o hoje, acho o disco belo. Meus amigos continuam o reprovando. A beleza de “Niandra” está em não possuir beleza. E por isso é completamente livre. Não foi feito para servir o ouvido do consumidor. Não foi feito para agradar a indústria (tanto que foi lançado com o único intuito de “espetacularizar” o estado mental desequilibrado que Frusciante se encontrava). Foi feito apenas para ser livre, de modo que não poderia ter beleza maior. Pela primeira vez eu tinha visto um artista fazer algo para não ser belo, e ao mesmo tempo ser capaz de mudar completamente minha percepção de mundo.
Me recordo, ao ouvir a faixa “Untitled #2”, de um sentimento que a linguagem não seria capaz de transmitir, por isso nem me ousaria a tentar. Tudo o que posso dizer é que era uma manhã nublada na praia das Pitangueiras, estava frio, e depois de algumas (muitas) cervejas, sem nenhum tipo de documento, aparelho celular ou dinheiro, apenas com a roupa do corpo, percebi que a beleza da vida estava no ato de ser livre. Nenhuma experiência foi, até hoje, tão libertadora como esta.    



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