sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Marionete


A maior e mais importante experiência estética que já vivi foi a minha vida.
Pautada na pós-modernidade líquida e fragmentada, fui uma grande mentira.
Como naquele filme de Woody Allen, Zelig – um homem que quando criança mentiu a respeito de ter lido um livro por ter vergonha de assumir a verdade, passa a viver um distúrbio de falta de personalidade e vira um camaleão humano, adaptando-se à realidade a sua volta, com médicos ao redor, vira um médico, com músicos, um músico, e assim por diante -, eu comecei na idade da pré-adolescência, fui me encaixando nos estereótipos mais  adequados, compulsivamente inventando grandes histórias a meu respeito e sabedorias que eu não tinha.
Até que em um dado momento – como grande parte da minha geração – fui atingida por uma onda TRASH, uma revisitação aos anos 80, de inconsequência e estupidez, queríamos ser Macaulay Culkin, loiros platinados, anoréxicos, viciados em heroína, vestindo roupas rasgadas e correndo feito loucos na pista da autodestruição.
Ali estava eu, a filha favorita dos meus pais, “inteligente”, “profunda”, afundando-me no Thin White Duke – música escrita e interpretada por David Bowie referindo-se à cocaína -, depredando-me,  desperdiçando a minha vida e meus neurônios numa vontade de ser a versão feminina de Sid Vicious.
Lembro-me perfeitamente de me olhar no espelho depois de uma noite um tanto pesada, minhas narinas sangravam, meu cabelo não era meu, minha boca cortada de tanto meus dentes passarem agressivamente por ali, eu estava morta. Viva, e no entanto sem sopro algum de vitalidade, sem nenhum sinal de que eu iria voltar.

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