sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Isis de Georges Lacombe, por Isabella Bergo

Em março deste ano, tive a a alegria de ir a Paris e, como sou apaixonada pelas artes, não pude deixar de ir ao Musée d'Orsay. Fui pensando na emoção que teria em encontrar obras do Van Gogh, Camille Claudel, Rodin, entre outros, mas tive uma surpresa que me marcou profundamente.

Eu não conhecia o artista Georges Lacombe, o pode ser um grande crime, mas penso que às vezes temos contato com a arte que faz sentido naquele determinado momento e talvez só naquele instante eu já estivesse aberta para encontrar Isis, a obra magnifica que me encantou tanto.

Não encontrei muitas informações a respeito desta obra, mas sei que foi esculpida em madeira e finalizada em 1895 pelo artista francês que viveu de 1868 a 1916. Ele teve muita influência de Gauguin e fez parte do grupo de artistas "Les Nabis".
A princípio, logo que vi a obra, pensei que fosse a respeito de uma índia. Sou um pouco leiga em mitologias, mas pesquisando, descobri que Isis é uma das principais divindades da mitologia egípcia. 

Por muito tempo esta deusa foi venerada como a representação maior da essência materna e da esposa perfeita, além de velar também pelo reino natural, portanto, por todas as dimensões da existência. Ela era vista igualmente como um símbolo do que há de mais singelo, dos que morrem e daqueles que nascem. Uma mitologia tardia atribui às cheias do Rio Nilo, que ocorriam uma vez por ano, as lágrimas derramadas por Ísis pela perda de seu amado (Osíris).


Ler a história de Isis só confirmou a admiração que senti por ela e quão bela foi a maneira como Lacombe a esculpiu.


Seu cabelo está ligado aos troncos de árvores, às raízes. Como se ela estivesse completamente conectada àquela terra, como se ela mesma fosse a responsável por tal equilíbrio vital da natureza. A serenidade que seus olhos fechados expressam, confirmam a importância desta mulher.


O leite que ela tira de seus peitos, com a cor do sangue, deságua em flores - o que significa a vida que transborda de dentro dela, e que é capaz de alimentar novas outras vidas e significar a continuidade e a dependência de uma vida por outra vida. Ela é a mãe, a grande força que todo fruto precisa para existir.


E seu pé, pisando em uma caveira, me fez pensar na finitude da vida, e também na condição primeira, humana, que é a morte.
Além da morte dela mesma, a vida que hoje existe só pode existir porque há também a morte de quem existiu, e deixou para o outro, um novo lugar, com um pouco do que construiu na terra. A presença da cor vermelha deixa clara a ligação com vida, o sangue, o amor e a própria dor – as condições e contradições da vida.
Não sei se escrevendo aos pedaços, fui capaz de compartilhar o que eu sinto, mas eu gostaria que esta obra fosse mais popular, mais conhecida, porque o sentido de existência que ela tem, além de toda mitologia, é um retrato da essência total da natureza. 




Nenhum comentário:

Postar um comentário