Quando estava no Jardim de Infância tive uma
professora, dessas “tias“ que marcam nossa história, que amava falar de arte. Lembro-me
de me encantar com as imagens dos livros sobre Miró e Monet que ela fazia
circular na sala. Naquele tempo eu não sabia de arte (muito menos sobre impressionismo
ou surrealismo), mas me deleitava com aquelas figuras bonitas. O tempo
passou... Eu cresci e deixei as artes pra lá, me tornei uma adolescente amarga
que se escondia das dores do mundo atrás
de uma muralha de ironia e deboche. Me parece que quando chegamos aos
treze anos somos acometidos duma angústia que nos impede de ver beleza naquilo
que nos cerca.
Todo esse lenga lenga tem por objetivo
contextualizar um momento marcante nessa minha juventude transviada. Quando
tinha quatorze anos fui a Paris visitar uma amiga que morava com a mãe na
cidade luz. Como era de se esperar ela me levou para fazer todos os passeios
turísticos clássicos. Fomos a Torre Eiffel, andamos pela Champs-Élysées,
fizemos um piquenique no Jardim de Luxemburgo e fizemos uma visita ao cotado (e
lotado) Louvre. Devo dizer que não me impressionei com o museu do Código
DaVinci, estava interessada demais em comentar sobre o “cofrinho” da Vênus de Milo
e passar na lojinha de presentes para perceber as maravilhas que me cercavam. Devo
ter ficado um pouco mais de uma hora naquele museu antes que eu decidisse que
preferia aproveitar o Sol. Na saída minha amiga falou que queria dar uma
passada em mais um museu e eu, na ingênua esperança de eliminar todos os
possíveis museus o mais rápido possível, concordei.
Nunca havia ouvido falar do l’Orangerie, mas
sua arquitetura charmosa me agradou. Entrei sem grandes expectativas,
caminhamos por um tempo até chegar numa sala arredondada com quadros enormes que prenderam
minha atenção. Acredito ter sido a
primeira vez que parei para observar um quadro por vontade própria, até cheguei
a me sentar diante de um deles, na tentativa de absorver uma onda de
sentimentos que invadiram meu ser sem pedir licença ou dar qualquer tipo de
aviso prévio. Eu estava diante das Nymphéas de Monet e de repente voltei a
ter três anos de idade, voltei ao tempo de cochilos e biscoitos quando a vida
era leve, vislumbrei algo em mim que achei que havia perdido.
Não se enganem, essa não é uma daquelas
histórias dignas de “casos de família“, não comecei a chorar histericamente no
meio do museu, nem liguei pra minha mãe dizendo que a amava. Naquele momento eu
e Monet compartilhamos de algo íntimo, de um momento fugaz, mas cheio de
significado. Olhando pra trás vejo essas experiência como um começo (ou será um
recomeço?), um primeiro momento naquilo que se tornaria minha caminhada de
volta a sensibilidade. De repente avistei uma fresta nos muros sólidos que
havia construído dentro de mim.

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