sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Pelléas et Mélisande


 

Por: Lucas Navarro 


Era mês chuvoso. Vez por outra alguns raios se intrometiam lá pela hora do almoço, porém nem passava a digestão e as nuvens, como de alguma praga do Antigo Testamento, voltavam e castigavam a inundada cidade pecadora.  Naquela quinta-feira não foi diferente. Saí do trabalho e caminhei com guarda-chuva até o metrô. No ingresso marcava que a ópera começaria às vinte horas. Como já passava das dezenove, corria. Ser pedestre em São Paulo é, de repente, perder a hora, esquecer o tempo, se atrasar, esquecer-se de si, parar o mundo, na epifania de encontrar, num canto do metrô, músicos que tocam notas cuja percepção sonora amalgamada pelos ruídos do subterrâneo da metrópole nos escapa.

Escalo até a superfície sem tempo para flanar e tendo a bexiga cheia aproveito o farol.

Curiosa é sensação de suspensão do tempo dentro do Teatro Municipal. Dos afrescos, esculturas, umbrais aos bolinhos: tudo convida a contemplação e, por instantes, parecemos viver plenamente. Mera ilusão. Essa sensação dura apenas até a segunda campainha em que você precisa engolir o café com o bolinho e esquecer-se de pegar o troco.

Entra-se, senta-se, espera-se... Escurece. É aí que nos esquecemos de tudo aquilo que veio antes e depois.

Tarefa inútil, admito, a de tentar descrever o que aqui se segue, como no impossível de Lacan, que não pode ser atingido e escapa ao discurso, quer se verifique em termos topológicos, que não se pode fazer coincidir uma ordem pluridimensional (o real) em uma ordem unidimensional (a linguagem). Ora, é precisamente a essa impossibilidade topológica que eu não vou aqui render-me.

As primeiras notas de Pelléas et Mélisande invadem a sala. Era como se todos que estavam ali presenciassem o despertar de alguma coisa invisível que dormia há muito tempo. Respirava enfim, novamente. Levantou consigo a cortina e mostrou seu lúgubre semblante. Adaptada de uma peça de Maeterlinck essa foi a única ópera deixada por Debussy que, com outros projetos em mente, preferiu abandoná-los e para se debruçar por mais tempo e aperfeiçoar obcecadamente sua obra prima. Aqui ele não buscava mais uma função gramática, mas forjava sua própria gramática e é para qual toda a sua produção converge, como se nela estivesse contida todo Debussy.

Os cinco personagens são igualmente importantes. Mélisande é a jovem encontrada chorando na beira do lago. Sua primeira aparição lembra o Narciso de Caravaggio, mas aqui, ainda numa busca primária da identidade. Depois temos Goulaud, o príncipe viúvo que a encontra e a desposa e cuja escala emocional vai do extremo protetor ao extremo violento. O Jovem Pelléas, meio irmão de Goulaud, com quem se configura o triangulo amoroso e, finalmente, dois grandiosos personagens coadjuvantes: primeiro Geneviève, mãe de Goulaud e Pelléas, com uma austeridade de espírito que inspira respeito e finalmente o grandioso e fascinante e nem sempre devidamente apontado Arkel, o velho e alquebrado rei que, desencantado com as leis do mundo, decide não mais intervir na vida e destino dos homens.

O que torna o drama musical de Debussy uma tristeza tão abissal? Afinal é uma tragédia comum em seu drama burguês ainda que mítico e atemporal, conforme observa Pierre Boulez. Ocorre que há no palco uma imagem elusiva, uma presença quieta, como um outro personagem. Esse é a morte que atua como grande indutor da trama como tema implícito. Decorre daí que essa é obra movida por aquilo que se denomina pulsão de morte, para usar termo posterior afinal a psicanálise de Freud ainda não existia.

Sem tempo, sem espaço delimitado, sem ação ou movimento grandioso a ópera é simbolicamente ambientada num reino denominado Allemonde, como se fosse um além mundo. Como não há nada de sobrenatural na peça só resta concluir que esse outro mundo não é outro se não o mundo interior do indivíduo, do ser, do sujeito. Taciturnos, algo fantasmático, esse personagens cantam imersos em escuridão e cenários sombrios, como que antecipadamente em luto. São raros os instantes de fulgor.

                Debussy dizia que a música não é expressão do sentimento, mas o sentimento em si, pois é bem esse estado de suspensão, essa expressão pura do mundo das sensações o que aflora de forma particularmente evidente no enigma que é esta ópera. Durante a sua vida teve dezessete projetos teatrais em mente. Apenas na dramaturgia de Maeterlinck, porém, ele encontrou o seu libretista ideal, alguém que, nas suas palavras, “diz as coisas pela metade”. Melisande é explicita ao dizer “não sou feliz”, quanto a tudo ou mais que ela não sabe verbalizar caberá à música dizer.

Tempête, cotês de Belle-Île; Claude Monet, 1886. Paris, musée d’Orsay.


                   Pelléas et Mélisande é um obra de reticências, aqui importa menos o que se mostra do que aquilo que se entrevê e é justamente por tais fendas que se manifesta o velado erotismo da peça, difícil deve ser a tarefa de transpor musicalmente esses personagens tão evasivos, particularmente esse “nada” em que se investe Mélisande, fascínio oblíquo dessas suas criaturas. Suas aparições, sombras e reflexos são enigmas do mundo simbolista sem fronteiras claras ou dimensões fixas. A música começa onde a palavras é incapaz de exprimir. Suas cortinas instrumentais compostas por demanda da encenação de mudanças de cenário, a orquestração é uma tapeçaria de timbres delicados, no ideal de Debussy: “uma orquestra à contra luz”

                Uma ópera almejada sem chão, flutuante, “que ela saia e retorne às sombras, que seja discreta pessoa”, como mais um personagem, mais um mistério, palpitação. O mistério de Mélisande mobiliza o amor casto de Pelléas e a paixão possessiva de Golaud que culminará em tragédia e morte, sua beleza e frescor também desperta o olhar de Arkel, como que se, ante a mera visão dela, ele pudesse sentir novamente a vida pulsar.
 
 
                O ciúme irracional de Golaud que invade a cena progride do desdém e inocência de Mélisande para violência física e moral sobre ela, caberá à Arkel, impotente, apenas o testemunho final, triste e amargo: “se eu fosse Deus, teria piedade do coração dos homens”. Os dados já foram lançados, não há qualquer dúvida quanto ao desfecho da trama. Todos, amor e ódio, já foram declarados, Pelleas é morto e na última cena Melisande delira em seu leito de morte, sempre interrogada por Golaud sem saber que pariu uma criança, sua herdeira trágica. Na voz de Arkel, faz-se o último pedido de silêncio.
 
Naissance des pieuvres; Claude Monet, 1906. The Art Institute of Chicago.


                  É nessa embriaguez de silêncio que me dá o estalo. Não há categorizações aqui.  Na relação íntima com o inefável, do inapreensível, é que repousa essa experiência estética. É perto da fonte de Mélisande que Pélleas murmura: “Há sempre um silêncio extraordinário... Ouviríamos a água dormir”. Ouçamos o silêncio. Nas palavras de Gaston Bachelard: “Parece que, para bem compreender o silêncio, nossa alma tenha necessidade de ver alguma coisa que se cale; para ter certeza do repouso, tem necessidade de sentir perto dela um grande ser natural que dorme”.






 

 
 
 


Marionete


A maior e mais importante experiência estética que já vivi foi a minha vida.
Pautada na pós-modernidade líquida e fragmentada, fui uma grande mentira.
Como naquele filme de Woody Allen, Zelig – um homem que quando criança mentiu a respeito de ter lido um livro por ter vergonha de assumir a verdade, passa a viver um distúrbio de falta de personalidade e vira um camaleão humano, adaptando-se à realidade a sua volta, com médicos ao redor, vira um médico, com músicos, um músico, e assim por diante -, eu comecei na idade da pré-adolescência, fui me encaixando nos estereótipos mais  adequados, compulsivamente inventando grandes histórias a meu respeito e sabedorias que eu não tinha.
Até que em um dado momento – como grande parte da minha geração – fui atingida por uma onda TRASH, uma revisitação aos anos 80, de inconsequência e estupidez, queríamos ser Macaulay Culkin, loiros platinados, anoréxicos, viciados em heroína, vestindo roupas rasgadas e correndo feito loucos na pista da autodestruição.
Ali estava eu, a filha favorita dos meus pais, “inteligente”, “profunda”, afundando-me no Thin White Duke – música escrita e interpretada por David Bowie referindo-se à cocaína -, depredando-me,  desperdiçando a minha vida e meus neurônios numa vontade de ser a versão feminina de Sid Vicious.
Lembro-me perfeitamente de me olhar no espelho depois de uma noite um tanto pesada, minhas narinas sangravam, meu cabelo não era meu, minha boca cortada de tanto meus dentes passarem agressivamente por ali, eu estava morta. Viva, e no entanto sem sopro algum de vitalidade, sem nenhum sinal de que eu iria voltar.

Juro que nunca usei heroína, por Ana Prieto

Escutei a musica “Heroin” da banda Velvet Underground pela primeira vez quando tinha quinze anos. Tinha acabado de mudar para uma cidadezinha no sul dos Estados Unidos e ainda não tinha muitos amigos. Apenas uma ou duas garotas eu acho que realmente sabiam da minha existência, e até hoje eu as agradeço por terem me ajudado a moldar o gosto musical que tenho hoje. Nossa amizade na verdade teve início pela musica, em uma aula de história as duas garotas começaram a falar comigo e mencionei que gostava de Arctic Monkeys, a partir deste dia nós sempre estávamos juntas na escola e minha educação musical realmente começou.



Uma das primeiras bandas a que me apresentaram foi Velvet Undergroud, eu estava no carro de Caroline (uma das meninas) voltando para minha casa e ela disse que de todas as musicas do Velvet Underground “Heroin” era a que mais a comovia. Ela colocou a musica em seu iPod e eu não sei se foi apenas a música ou uma união desta com a paisagem da  cidade, o vento gelado batendo em meu rosto, e os sentimentos reprimidos de uma garota de 15 anos, mas este foi um momento em minha vida que eu realmente senti. A musica me impactou de uma maneira incrível, por isso realmente vejo isso como uma experiência estética. Foi algo que no momento me pareceu de outro mundo, desde as primeiras batidas melancólicas aos barulhos ensurdecedores e caóticos, e o apito agudo contínuo. “Heroin” em si é uma experiência, eu não sei muito bem mais sinto que a música foi criada para descrever a experiência do artista (Lou Reed) com a droga que ele tanto odeia e ama. A musica É uma “heroin trip”,  atinge essa função tão bem que quando a escuto sinto que estou passando por esta mesma experiência do artista, algo que incomoda e ao mesmo tempo é extremamente prazeroso. 




Macaco viu, macaco fez

A partir do texto original de Franz Kafka, a companhia teatral Club Noir apresentou, pela primeira vez em 2010, a montagem de 'Comunicação a uma Academia'.




Diante de uma Academia, que simboliza todas as instituições dedicadas ao conhecimento (e que involuntariamente é representada por nós, a platéia), um macaco (a atriz Juliana Galdino) faz o relato de como se tornou humano.

Um guarda, calado, coloca uma frágil linha divisória entre a platéia e o palco, posicionando-se na lateral da cena com um rifle em mãos. Alguns segundos se passam e o personagem principal entra, bípede, porém curvado, o ex-primata. A luz é escassa e sua expressão é soturna. Durante o espetáculo ele exalta-se e muda de lugar imperceptivelmente, no apagar das luzes, ressurgindo muito próximo da platéia, que provavelmente não comporta mais de 40 pessoas.
Nesses momentos, o guarda no canto do palco e macaco trocam olhares desconfiados, aumentando a aflição da platéia.

'Será que já aconteceu algo antes? Um incidente?'



A luz, a presença de um 'guarda', a proximidade do personagem com os espectadores, o cenário frio, a atuação impecável e, principalmente, a própria história sendo narrada, culminam em um ápice, um impacto sensorial e emocional.

Afinal, o infortúnio do macaco é o nosso, a troca de misérias é uma experiência que todos nós temos em comum com ele.

Bruno Loos

Niandra Lades And Usually Just A T-Shirt, por Rafael Crespo



          “Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt” é um álbum lançado em 1994, pelo músico John Frusciante. Gravado entre 1991 e 1993, o álbum apresentou para o mundo o estado em que John Frusciante se encontrava após abandonar a carreira de sucesso (junto ao Red Hot Chili Peppers), totalmente afundado nas drogas. Ele toca vários instrumentos como guitarra elétrica, violão, banjo e piano. O vício em heroína e problemas com depressão colocaram Frusciante em um momento de alta perturbação, deixado transparente em “Niandra”.
Desde pequeno sou admirador de John Frusciante, mas tive meu primeiro contato com o “Niandra” apenas no ano de 2009. Acostumado com sua voz suave e músicas belas, que sempre tratou de compor, fui pego de surpresa quando ouvi as primeiras faixas do álbum. Há uma infinita falta de preocupação com a estética musical. Desta forma, o disco foi incansavelmente criticado e rejeitado por muitos de seus fãs. Tentei, com extrema dificuldade, digerir e decifrar as mensagens que Frusciante passava com aquela música turva.
Muitos de meus amigos recusaram-se a ouvir o disco até o final. Confesso que é assustadoramente perturbador. Apesar de estar longe de algo considerado belo, “Niandra” teve a capacidade de me atingir profundamente. No auge dos meus 17 anos, percebi o quanto a arte (que eu conhecia) estava acorrentada ao belo. Frusciante me mostrou, naquele momento, o contrário. Em um instante de extrema dificuldade, criou um disco desprovido de beleza. E era esta sua real intenção. Quando me dei conta disso, uma liberdade divina me tocou.
O sentimento foi tão forte que, até o hoje, acho o disco belo. Meus amigos continuam o reprovando. A beleza de “Niandra” está em não possuir beleza. E por isso é completamente livre. Não foi feito para servir o ouvido do consumidor. Não foi feito para agradar a indústria (tanto que foi lançado com o único intuito de “espetacularizar” o estado mental desequilibrado que Frusciante se encontrava). Foi feito apenas para ser livre, de modo que não poderia ter beleza maior. Pela primeira vez eu tinha visto um artista fazer algo para não ser belo, e ao mesmo tempo ser capaz de mudar completamente minha percepção de mundo.
Me recordo, ao ouvir a faixa “Untitled #2”, de um sentimento que a linguagem não seria capaz de transmitir, por isso nem me ousaria a tentar. Tudo o que posso dizer é que era uma manhã nublada na praia das Pitangueiras, estava frio, e depois de algumas (muitas) cervejas, sem nenhum tipo de documento, aparelho celular ou dinheiro, apenas com a roupa do corpo, percebi que a beleza da vida estava no ato de ser livre. Nenhuma experiência foi, até hoje, tão libertadora como esta.    



Laranjas Impressionantes

  Quando estava no Jardim de Infância tive uma professora, dessas “tias“ que marcam nossa história, que amava falar de arte. Lembro-me de me encantar com as imagens dos livros sobre Miró e Monet que ela fazia circular na sala. Naquele tempo eu não sabia de arte (muito menos sobre impressionismo ou surrealismo), mas me deleitava com aquelas figuras bonitas. O tempo passou... Eu cresci e deixei as artes pra lá, me tornei uma adolescente amarga que se escondia das dores do mundo atrás  de uma muralha de ironia e deboche. Me parece que quando chegamos aos treze anos somos acometidos duma angústia que nos impede de ver beleza naquilo que nos cerca.

  Todo esse lenga lenga tem por objetivo contextualizar um momento marcante nessa minha juventude transviada. Quando tinha quatorze anos fui a Paris visitar uma amiga que morava com a mãe na cidade luz. Como era de se esperar ela me levou para fazer todos os passeios turísticos clássicos. Fomos a Torre Eiffel, andamos pela Champs-Élysées, fizemos um piquenique no Jardim de Luxemburgo e fizemos uma visita ao cotado (e lotado) Louvre. Devo dizer que não me impressionei com o museu do Código DaVinci, estava interessada demais em comentar sobre o “cofrinho” da Vênus de Milo e passar na lojinha de presentes para perceber as maravilhas que me cercavam. Devo ter ficado um pouco mais de uma hora naquele museu antes que eu decidisse que preferia aproveitar o Sol. Na saída minha amiga falou que queria dar uma passada em mais um museu e eu, na ingênua esperança de eliminar todos os possíveis museus o mais rápido possível, concordei.




  Nunca havia ouvido falar do l’Orangerie, mas sua arquitetura charmosa me agradou. Entrei sem grandes expectativas, caminhamos por um tempo até chegar numa sala  arredondada com quadros enormes que prenderam minha atenção.  Acredito ter sido a primeira vez que parei para observar um quadro por vontade própria, até cheguei a me sentar diante de um deles, na tentativa de absorver uma onda de sentimentos que invadiram meu ser sem pedir licença ou dar qualquer tipo de aviso prévio. Eu estava diante das Nymphéas de Monet e de repente voltei a ter três anos de idade, voltei ao tempo de cochilos e biscoitos quando a vida era leve, vislumbrei algo em mim que achei que havia perdido.



 Não se enganem, essa não é uma daquelas histórias dignas de “casos de família“, não comecei a chorar histericamente no meio do museu, nem liguei pra minha mãe dizendo que a amava. Naquele momento eu e Monet compartilhamos de algo íntimo, de um momento fugaz, mas cheio de significado. Olhando pra trás vejo essas experiência como um começo (ou será um recomeço?), um primeiro momento naquilo que se tornaria minha caminhada de volta a sensibilidade. De repente avistei uma fresta nos muros sólidos que havia construído dentro de mim.

Violino, por Isabela Colombo

Para escrever esse post, pensei em falar sobre uma das coisas que mais mexem comigo desde que me conheço por gente. A verdade é que eu sempre tive uma ligação especial com música clássica, e minha mãe uma vez me disse que quando eu ainda era bebê, a única coisa que me acalmava quando eu chorava demais, era música clássica. Minha família não é muito ligada à musica no geral. Quero dizer, não tenho parentes músicos, mas meu irmão é formado em piano e minha madrinha, apesar de não ser formada, toca piano muito bem. E acho que talvez tenha sido meu contato com minha madrinha que tenha me levado a aprender música. Toda vez que a visitava, eu passava horas no piano apertando as teclas sem saber o que estava fazendo, e ficava implorando pra que ela me ensinasse a tocar...e por fim ela começou a me dar aulas mas me disse para ir para uma escola de música aprender tudo certinho. E lá fui eu pra uma escola formal de música, mas deixei o piano de lado e comecei a fazer aulas de teclado (que pode parecer a mesma coisa, mas a verdade é que o teclado certamente não tem o mesmo sabor do piano), e depois de um ano eu me cansei desse eletrônico, mas me apaixonei por um outro instrumento: o violino. Minha ligação com o violino foi como amor à primeira vista (ou ao primeiro toque), pois desde a primeira aula parecia que havia achado um instrumento que eu entendesse por completo, e que também conseguia me entender...e assim passei quase oito anos da minha vida me dedicando a esse instrumento maravilhoso. Minha jornada na música foi bem agitada. Eu era bem aplicada e estudava várias horas por dia, tanto porque amava, quanto porque queria ficar boa logo para aprender as músicas mais difíceis. E não demorou muito para a escola me convidar para tocar na orquestra da escola. E quando criaram a orquestra jovem, lá estava eu também: 12 anos de idade, primeiro violino chefe dessa pequena orquestra. E fazíamos várias apresentações na cidade e região e eu gostava de tudo: de me vestir com roupas formais, de afinar o violino com toda a orquestra enquanto o público olhava curioso, de tocar em grupo, e de me levantar e executar alguns solos. Já com quinze anos eu comecei a fazer pequenos trabalhos, tocava em casamentos e fui chamada para participar de um quarteto, que foi uma das melhores experiências da minha vida. Não preciso dizer que eu estava muito mais envolvida com a música do que com qualquer outra atividade da minha vida né? Mas apesar disso, quando cheguei ao terceiro colegial, decidi guardar o violino e me dedicar aos vestibulares, e desde então deixei de estudar música e poucas foram as vezes que eu toquei meu violino de novo. Não me arrependo realmente das decisões que tomei na vida, pois elas todas me trouxeram até onde estou, mas eu definitivamente sinto muita falta da companhia desse instrumento peculiar. O violino foi por muitos anos uma espécie de melhor amigo, meu refúgio para os dias tristes e minha libertação para os dias contentes. Eu sempre amei o som um tanto melancólico do violino, tão bonito, tão comovente...e definitivamente me proporcionou por muito tempo uma experiência estética marcante. Espero que tenham gostado. Beijos

Isis de Georges Lacombe, por Isabella Bergo

Em março deste ano, tive a a alegria de ir a Paris e, como sou apaixonada pelas artes, não pude deixar de ir ao Musée d'Orsay. Fui pensando na emoção que teria em encontrar obras do Van Gogh, Camille Claudel, Rodin, entre outros, mas tive uma surpresa que me marcou profundamente.

Eu não conhecia o artista Georges Lacombe, o pode ser um grande crime, mas penso que às vezes temos contato com a arte que faz sentido naquele determinado momento e talvez só naquele instante eu já estivesse aberta para encontrar Isis, a obra magnifica que me encantou tanto.

Não encontrei muitas informações a respeito desta obra, mas sei que foi esculpida em madeira e finalizada em 1895 pelo artista francês que viveu de 1868 a 1916. Ele teve muita influência de Gauguin e fez parte do grupo de artistas "Les Nabis".
A princípio, logo que vi a obra, pensei que fosse a respeito de uma índia. Sou um pouco leiga em mitologias, mas pesquisando, descobri que Isis é uma das principais divindades da mitologia egípcia. 

Por muito tempo esta deusa foi venerada como a representação maior da essência materna e da esposa perfeita, além de velar também pelo reino natural, portanto, por todas as dimensões da existência. Ela era vista igualmente como um símbolo do que há de mais singelo, dos que morrem e daqueles que nascem. Uma mitologia tardia atribui às cheias do Rio Nilo, que ocorriam uma vez por ano, as lágrimas derramadas por Ísis pela perda de seu amado (Osíris).


Ler a história de Isis só confirmou a admiração que senti por ela e quão bela foi a maneira como Lacombe a esculpiu.


Seu cabelo está ligado aos troncos de árvores, às raízes. Como se ela estivesse completamente conectada àquela terra, como se ela mesma fosse a responsável por tal equilíbrio vital da natureza. A serenidade que seus olhos fechados expressam, confirmam a importância desta mulher.


O leite que ela tira de seus peitos, com a cor do sangue, deságua em flores - o que significa a vida que transborda de dentro dela, e que é capaz de alimentar novas outras vidas e significar a continuidade e a dependência de uma vida por outra vida. Ela é a mãe, a grande força que todo fruto precisa para existir.


E seu pé, pisando em uma caveira, me fez pensar na finitude da vida, e também na condição primeira, humana, que é a morte.
Além da morte dela mesma, a vida que hoje existe só pode existir porque há também a morte de quem existiu, e deixou para o outro, um novo lugar, com um pouco do que construiu na terra. A presença da cor vermelha deixa clara a ligação com vida, o sangue, o amor e a própria dor – as condições e contradições da vida.
Não sei se escrevendo aos pedaços, fui capaz de compartilhar o que eu sinto, mas eu gostaria que esta obra fosse mais popular, mais conhecida, porque o sentido de existência que ela tem, além de toda mitologia, é um retrato da essência total da natureza.